Muito se discute sobre o caráter representativo do Centro acadêmico perante a sociedade, entendendo que este é o órgão legítimo para a representação dos corpo discente em relação às inúmeras questões sociais, culturais, e obviamente, políticas. Essa atribuição, que diga-se de passagem, é uma função histórica do movimento estudantil na sociedade brasileira, é imprescindível e jamais deve ser posta de lado.
No entanto, hoje temos um cenário de abandono da nossa faculdade, seja em relação à gestão de verbas, à estrutura física, a questões pontuais como o preço abusivo da xérox, além da polêmica discussão em torno na reforma curricular, fato delicadíssimo e que requer um debate evoluído, embasado e também minucioso pelos estudantes, pois essa reforma certamente será um divisor de águas na faculdade de direito, para o bem ou para o mal.
É preciso que nos prendamos às questões internas da faculdade. Sendo franco, pouco importa para a maior parcela do corpo discente as posições do C.A. em relação ao racismo, às políticas sociais, à reforma agrária ou até mesmo em relação a corrupção administrativa por parte de senadores e deputados, se questões do cotidiano acadêmico, por vezes banais, não são solucionadas. Para que me serve um C.A. que luta por justiça social, se esse mesmo C.A. mal consegue organizar uma visita ao T.J.? É como um cozinheiro que não sabe fazer arroz tentando fazer uma moqueca. O externo está sempre se sobrepondo ao interno, quando problemas urgentes de ordem interna na faculdade clamam por uma maior atenção. O macro subjugando o micro, quando a relação mais satisfatória seria a oposta.
Se queremos uma mudança a nível de Brasil, com o fomento à justiça social, à democracia e ao desenvolvimento, devemos mudar o que está à nossa volta. Boa parte dos problemas vividos pela UFF se repete em outras instituições, fazendo parte de uma crise complexa, somente resolvida de forma descentralizada. Se queremos um ensino melhor, uma estrutura melhor, não temos que esperar, por exemplo, que a UNE tome uma postura, mas exigir que na nossa faculdade as coisas mudem, servindo de exemplo às outras faculdades, para que conseqüentemente instituições de nível estadual e nacional tomem também atitudes para uma mudança de paradigma, seja em relação ao que for.
Um basta à passividade e ao paternalismo, típicos do Brasil, quando esperamos a ação dos nossos representantes, ao invés de estarmos pressionando-os para que venham a agir. Devemos mudar o que está ao nosso alcance: a Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, para depois pensarmos na cidade, no estado, no país e até no mundo. É demagogia reclamar que minha rua está suja quando meu quintal chafurda na imundície.
É o mesmo raciocínio estúpido que faz as pessoas se preocuparem mais com a conduta do presidente do que com a do vereador. Muitas vezes não sabemos nem quais são os vereadores da nossa cidade, mas sabemos de cor o nome dos nossos deputados federais, tão importantes, mas também tão distantes. Seria mais inteligente fiscalizar nossos representantes municipais, que até por uma questão lógica, mais tarde se tornarão, alguns, deputados e senadores, entendendo claro que uma fiscalização do legislativo federal por parte dos eleitores é também impreterível. Se os habituo à constante fiscalização quando vereadores, estes estarão muito mais preparados e conscientes das nossas exigências quando alcançarem cargos institucionalmente superiores. Minha cidade é tão ou mais importante quanto o meu país.
Resumidamente, creio que seja da vontade dos nossos colegas de faculdade uma preocupação maior quanto aos nossos problemas internos, que diga-se de passagem, são também complexos. Nada de nos prendermos à ideologia de que vamos mudar o mundo sem antes mudarmos nosso meio, nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa escola ou faculdade. Essa é minha bandeira, que creio ser a bandeira dos alunos e do nosso movimento, pluralista e atento ao que de fato anseia nossos colegas de faculdade e futuros colegas de profissão.
Abraços a todos!
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
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O macro constroe o micro que edifica o macro, é uma relação dialética que precisa ser encarada dessa forma.
ResponderExcluirNão podemos abandonar questões comezinhas das nossas vidas, até porque fundamentais, mas supor alterar o mínimo sem intervir no máximo também é um equívoco.
Forte abraço.
Paulo, dê uma olhada na introdução do meu texto:
ResponderExcluir"Muito se discute sobre o caráter representativo do Centro acadêmico perante a sociedade, entendendo que este é o órgão legítimo para a representação dos corpo discente em relação às inúmeras questões sociais, culturais, e obviamente, políticas. Essa atribuição, que diga-se de passagem, é uma função histórica do movimento estudantil na sociedade brasileira, é imprescindível e jamais deve ser posta de lado."
Outro trecho:
"...entendendo claro que uma fiscalização do legislativo federal por parte dos eleitores é também impreterível. "
Em momento algum defendi que não devemos intervir no macro, mas acho que intervindo no micro, fatalmente estaremos intervindo no macro. Agora, o que se vê no CAEV atual, são certos membros virando as costas para a faculdade e se preocupando em fazer politicagem partidária em órgãos "superiores"
A visão de que o macro constrói o micro, pra mim, é mero discurso de certos líderes que acham que a classe universitária é vazia e despolitizada. Sinceramente, pouco me importa o que a UNE acha ou deixa de achar sobre qualquer tema, e tenho absoluta certeza de que é esse o pensamento de quase todos os alunos da faculdade de direito da UFF. O pensamento atual, é o de que se quero mudar os rumos do meu país, o faço da melhor maneira questionando diretamente meu representante, e através do legítimo poder do voto, e não pelos organismos estudantis, corrompidos por politicagem anacrônica e barata, representantes que representam a si mesmos, e não seus supostos representados.
Em poucas palavras: Nosso poder de intervenção na UNE, por exemplo, é extremamente limitada porque já há algum tempo ela não representa os estudantes(triste contradição), cabendo a nós intervirmos nos nossos C.As, melhorando-os, subindo o primeiro degrau da escada que termina na UNE. Não podemos dar um passo maior que as pernas.
O macro não molda o micro há muito, mas muito tempo. O macro é motivo de deboche e riso por parte da maioria dos estudantes.
Abraços.
Eu acho que o micro é mais importante. É a base do macro. De nada adianta exigirmos do macro algo que não corresponde ao micro. Ou algo que nós não fazemos no nosso dia-dia.
ResponderExcluirSeria demagogia, hipocrisia